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Para não esquecer Saramago

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O mundo perdeu, no dia 18 de junho, o escritor português José Saramago. Aos 87 anos de idade, já doente, ele faleceu ao lado da esposa, na ilha de Lanzarote, nas Canárias, onde vivia desde 1993.

Expoente da literatura mundial, Saramago era um dos maiores nomes da literatura contemporânea, vencedor do prêmio Nobel de Literatura e do prêmio Camões - a mais importante condecoração da língua portuguesa.

Autor de “Ensaio sobre a cegueira” e “O evangelho segundo Jesus Cristo”, entre tantos outros livros, deixou inacabado uma obra que iria falar sobre o tráfico de armas.


 

Ateu, cético e pessimista, Saramago sempre teve atuação política marcante (era filiado ao Partido Comunista Português) e levantou a voz contra as injustiças, a religião constituída e os grandes poderes econômicos, que ele via como grandes doenças de seu tempo.

Selecionamos dois trechos de sua obra, em homenagem.

“(...) É certo que há uma terrível desigualdade entre as forças materiais que proclamam a necessidade da guerra e as forças morais que defendem o direito à paz, mas é também certo que nada, em toda a História, pôde vencer a vontade dos homens, excepto a vontade doutros homens. Não é com forças de transcendência que temos de confrontar-nos, mas sim, e apenas, com outros homens. Trata-se, então, de tornar mais forte a vontade de paz que a vontade de guerra. Trata-se de entrar em mobilização geral para a luta pela paz: é a vida da Humanidade que estaremos defendendo, esta de hoje, e a de amanhã, que talvez se perca se não começarmos a defendê-la agora mesmo. A Humanidade não é uma abstracção retórica, é carne sofredora e espírito ansioso, e é também uma esperança inesgotável. A paz é possível. Mobilizemo-nos para ela.”

(Artigo “Sobre a guerra, a paz e a cultura”, publicado no site www.josesaramago.org)


“Do novelo emaranhado da memória, da escuridão dos nós cegos, puxo um fio que me aparece solto. Devagar o liberto, de medo que se desfaça entre os dedos. É um fio longo, verde e azul, com cheiro de limos, e tem a macieza quente do lodo vivo. É um rio. Corre-me nas mãos, agora molhadas. Toda a água me passa entre as palmas abertas, e de repente não sei se as águas nascem de mim, ou para mim fluem. Continuo a puxar, não já memória apenas, mas o próprio corpo do rio. Sobre a minha pele navegam barcos, e sou também os barcos e o céu que os cobre e os altos choupos que vagarosamente deslizam sobre a película luminosa dos olhos. (...) Aí se fundem numa só verdade as lembranças confusas da memória e o vulto subitamente anunciado do futuro. Uma ave sem nome desce donde não sei e vai pousar calada sobre a proa rigorosa do barco. Imóvel, espero que toda a água se banhe de azul e que as aves digam nos ramos por que são altos os choupos e rumorosas as suas folhas. Então, corpo de barco e de rio na dimensão do homem, sigo adiante para o fulvo remanso que as espadas verticais circundam. Aí, três palmos enterrarei a minha vara até à pedra viva. Haverá o grande silêncio primordial quando as mãos se juntarem às mãos. Depois saberei tudo.”

(“Protopoema”, do livro “Provavelmente Alegria”, 1985)